O Código de Batidas
Cada letra são dois números, a linha e a coluna, de uma grade cinco por cinco, e cada número é aquele tanto de batidas. Não existe longo e curto, e é exatamente esse o ponto.
A grade
| 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | |
|---|---|---|---|---|---|
| 1 | A | B | C / K | D | E |
| 2 | F | G | H | I | J |
| 3 | L | M | N | O | P |
| 4 | Q | R | S | T | U |
| 5 | V | W | X | Y | Z |
Como enviar uma letra
- Ache a letra na grade: C e K dividem a mesma casa, então K vai como C.
- Bata o número da linha, de uma a cinco batidas.
- Faça uma pausa e bata o número da coluna.
- Pause mais entre letras, e mais ainda entre palavras.
Exemplo: AGUA
| Letra | Linha, coluna | Batidas |
|---|---|---|
| A | 1, 1 | . . |
| G | 2, 2 | .. .. |
| U | 4, 5 | .... ..... |
| A | 1, 1 | . . |
Por que ganha do Morse através de uma parede
O Morse guarda o significado na duração: o traço é um sinal segurado três vezes mais tempo que o ponto. Isso funciona num fio, num rádio, numa lâmpada, qualquer canal capaz de segurar um sinal firme por um tempo medível. Não funciona quando o seu único instrumento é a mão e uma parede de concreto, porque batida não tem duração. Ela acontece, e pronto, aconteceu.
O código de batidas joga a duração fora e põe tudo em contar e agrupar. Isso custa velocidade: a letra média precisa de cinco ou seis batidas contra menos de três elementos do Morse, mas compra um código que funciona em qualquer canal capaz de um barulho e um silêncio. Prisioneiros chegaram sozinhos a alguma versão dele em pelo menos dois séculos diferentes, o que é um argumento forte de que é a resposta natural ao problema.
Tem ainda outra propriedade que vale notar: dá para ensinar através da própria parede. Quem chega sem saber o código aprende com alguém batendo o alfabeto devagar, porque o sistema é só contagem. Ensinar Morse do mesmo jeito exigiria antes passar a ideia do que é um traço.
Perguntas frequentes
Por que não tem K?
Uma grade 5x5 tem 25 casas e o alfabeto tem 26 letras, então uma precisa sair. O K é a escolhida porque é rara e porque o C faz o serviço sem atrapalhar a leitura. Em português o problema é menor ainda: K quase só aparece em nomes e palavras emprestadas.
E as letras com acento?
Não existem na grade, e isso não é falha da adaptação: a grade tem 25 casas e ponto. Á vai como A, ç vai como C. Quem recebe lê a palavra e entende, que é tudo o que se pede de um código batido numa parede.
Qual a diferença para o código Morse?
O Morse precisa de um canal capaz de carregar dois comprimentos diferentes de sinal. O código de batidas só precisa de um canal capaz de fazer barulho, porque cada símbolo é uma contagem de batidas iguais. É uma exigência muito menor, e é a razão inteira de o código existir: você não consegue mandar um traço através de uma parede, mas consegue bater duas vezes.
É mais lento que o Morse?
Bem mais. A letra média leva umas cinco batidas e meia mais duas pausas, contra menos de três elementos no Morse. O código de batidas nunca competiu em velocidade. Competia com não ter como se comunicar de jeito nenhum.
Onde ele foi usado de verdade?
O caso mais conhecido é o dos prisioneiros americanos no Vietnã, onde se espalhou pela prisão de Hoa Lo depois de 1965 e permitiu que homens em isolamento conversassem durante anos. É bem mais antigo que isso: uma versão do quadrado de Políbio vem da Antiguidade, e prisioneiros russos usavam grade parecida no século XIX, mas foi o Vietnã que o tornou famoso.